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ARTIGO: Resistência cerebral à insulina e comportamento alimentar

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resistencia a insulinaObesidade, diabetes e resistência à insulina (definida como a diminuição da função da insulina nos tecidos alvo) costumam estar associados a alterações no comportamento alimentar, no humor e até mesmo na cognição. Indivíduos com alterações cognitivas relacionadas à senilidade ou sofrendo de Doença de Alzheimer (DA) apresentam sinais de resistência cerebral à insulina como o aumento da fosforilação do substrato serina-1 do receptor da insulina e diminuição da concentração de insulina do líquor. Além disso, ratos knockout para o receptor de insulina ativam a enzima glicogeno-sintetase-quinase-3 beta, o que resulta em fosforilação da proteína tau, uma assinatura bioquímica da DA. Estes achados têm estimulado a pesquisa pelas alterações comportamentais, emocionais, motivacionais e cognitivas associadas à resistência cerebral à insulina na obesidade.

A relação entre função cerebral e insulina é recente, pois acreditava-se que, em se tratando de um grande polipeptídeo, a insulina não atravessasse a barreira hematoencefálica. Além disso, o cérebro é capaz de utilizar a glicose através de processos independentes da insulina. Mas existem receptores de insulina distribuídos por diversas regiões do cérebro, um órgão que possivelmente é capaz de produzir este hormônio. Estas regiões compreendem o hipotálamo, o córtex pré-frontal, o estriado ventral e o hipocampo. A resistência cerebral à insulina não produz apenas alterações de comportamentos alimentares e déficits cognitivos, mas também pode acarretar problemas no metabolismo periférico da glicose, predispondo à diabetes mellitus tipo II.

Estados de resistência cerebral à insulina na obesidade parecem estar relacionados à inflamação sistêmica deflagrada pelas citocinas liberadas pelos adipócitos e explicam muitos dos comportamentos alimentares disfuncionais observados em indivíduos obesos, como os binges, a compulsão alimentar noturna e o grazing, os quais podem ser revertidos com a cirurgia bariátrica. De fato, estudos de neuroimagem funcional na obesidade mostram que obesos mórbidos apresentam alterações da resposta de regiões cerebrais a pistas alimentares, tais como aumento da atividade de circuitos relacionados ao processamento da recompensa alimentar (como o estriado ventral e o córtex órbitofrontal [COF]) e diminuição do controle cognitivo, uma variável processada pelo córtex pré-frontal dorsolateral (CPFDL). Além disso, muitos estudos mostram que estes processos podem ser revertidos pela cirurgia bariátrica.

A resistência cerebral à insulina provocada pela inflamação sistêmica induzida pela obesidade atua de diferentes formas, na dependência da região afetada. O córtex frontal tem diferentes papeis na regulação do comportamento alimentar. Maior atividade do CPFDL está associada ao sucesso em cumprir dietas, pois dali parte um controle top-down de estruturas como o COF, o córtex do cíngulo e o estriado ventral, respectivamente associados à codificação do valor hedônico do alimento, a motivação para comer e a recompensa associada à comida. Portanto, todas estas estruturas, que operam em conjunto em processos de tomada de decisão, têm seu funcionamento avariado pela resistência à insulina. Assim, ao afetar o CPFDL, a resposta inadequada à insulina compromete o metabolismo local de seus neurônios, desinibindo estruturas como o COF, o cíngulo e o estriado ventral, cujas reações a pistas alimentares se exacerbam. Além disso, a insulina costuma afetar diretamente os neurônios dopaminérgicos, diminuindo suas ações sobre as recompensas alimentares, um processo revertido pela resistência à insulina.

Outras estruturas influenciadas pela insulina são o giro fusiforme e o hipocampo. O primeiro tem o papel de processar o reconhecimento visual e o segundo, a memória. Embora tradicionalmente estudado como uma área de reconhecimento visual de faces, o giro fusiforme também participa do monitoramento e atenção a alimentos calóricos, uma atividade normalmente atenuada pela insulina (e exacerbada pela resistência à insulina). Em relação à memória, a insulina parece contribuir para a formação de memórias declarativas no hipocampo, através de um papel de favorecimento à plasticidade sináptica e de suporte aos neurônios, um mecanismo possivelmente afetado pela resistência local à insulina e envolvido no prejuízo cognitivo secundário à obesidade mórbida.

Diversos estudos têm evidenciado os mecanismos neurofisiológicos subjacentes às alterações comportamentais, emocionais e cognitivas da obesidade. Eles incluem a inflamação sistêmica, a disbiose e, mais recentemente, a resistência cerebral à insulina que, através dos prejuízos que causa ao funcionamento de diversas regiões do cérebro relacionadas à regulação das emoções, da memória, do pensamento, da motivação e da impulsividade, acaba por perpetuar as atitudes que normalmente concorrem para piorar a obesidade.

Hélio Tonelli é médico psiquiatra e integrante do Núcleo de Saúde Mental da Comissão de Especialidades Associadas (COESAS) da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica.

Referências Bibliográficas

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